Liga Narrativa (Jun – Masmorras, Calabouços e Prisões): Advogado do Diabo

Dias atrás me forcei a escrever sobre o tema do mês mas empaquei 3 dias com o final. Ontem a noite, apaguei um pedaço que seria o pré-final e o fim veio. O universo conspirou contra mas consegui digitar as 4 páginas de caderno para sua diversão.

Este texto é continuação de “O Cara” mas pode ser lido sem o anterior.

Liga Narrativa, Junho de 2010.
Membro: Juca 999, de Duque de Caxias – RJ, representando Juca’s Blog.
Tema: Masmorras, Calabouços e Prisões.
Título: Advogado do Diabo.

Num presídio de alta segurança, advogado e cliente se encontraram pela primeira vez, para discutir estratégias de defesa. A missão será árdua pois o cliente foi acusado de assassinato. Mas não um assassinato qualquer.

– Bom dia. Meu nome é Almeida e serei seu defensor no caso, senhor…

– Cássio. Bom dia também. Não precisa me chamar de senhor.

Um pouco constrangido, Almeida concordou acenando com a cabeça. Com tantos casos na Defensoria Pública, lembrar o nome de cada cliente era complicado. Ele prosseguiu a conversa.

– Bem, Cássio, preciso fazer umas perguntas para traçar seu perfil. Tudo bem?

– Sim. Se é necessário…

– Qual a sua idade?

– 41 anos.

– Profissão?

– Funcionário público.

– Certo. O que fazia como servidor?

– Quase nada.

– Pode explicar melhor?

– Claro. Todo dia chegava na repartição às dez horas da manhã e saia às quatro horas da tarde. Lia uns memorandos e emails, fazia umas planilhas… Nada construtivo.

Almeida sentiu um pouco de raiva. Aos 28 anos, como defensor público, trabalhava incansavelmente em nome da Justiça, ganhando uma ninharia. Enquanto isso, tinha a missão de proteger legalmente mais um sanguessuga do Estado. Mas o profissionalismo vinha primeiro.

– E gostava de seu trabalho?

– Quando era moço, sim. Fazer quase nada e ser bem pago é o sonho de qualquer um. Não demorou, comecei a me incomodar. Sentia que estava roubando o povo, tirando a vez de alguém mais capaz.

Almeida estranhou – e muito – a resposta de Cássio, que parecia sincero. Um sanguessuga arrependido? Era difícil engolir.

– Nunca pensou em mudar de emprego?

– Sim. Inúmeras vezes.

– E o que o impediu?

– Tem gente que é esperta. Outros são atléticos. E uns poucos têm muitos amigos. Eu não sou bom em nada. Acabei me conformando com a oportunidade que tive.

Um cidadão médio? Será que ele não é o monstro que dizem? Almeida ficava confuso. Já não queria mais perguntar sobre a vida do cliente, com medo de interferência em seu raciocínio. Respirou fundo. Hora de falar do caso.

– Como temos pouco tempo, quero que me diga exatamente o que houve na manhã do acontecido.

– O “acontecido”? O dia em que alguém matou minha mulher brutalmente?

– É… Sim…Você foi acusado, Cássio. Preciso saber da sua versão ou vão te prender por décadas.

Lutando bravamente para não chorar, Cássio baixou a cabeça, suspirando. Jamais sentiu-se tão fraco em sua vida. Erguendo o rosto novamente, sua lembranças vinham à tona.

– Acordei por volta de nove horas da manhã. Normalmente demorava trinta minutos para me arrumar e caminhava por quinze até chegar à repartição. Mas nesse dia me arrumei na metade do tempo. Estava empolgado com o que iria acontecer.

Almeida gelou. Seu cliente estava confessando cinicamente que era culpado? Quase não conseguiu abrir a boca.

– Com o que… você… Estava empolgado?

– Mudança.

– Mudança?

– Eu sentia que minha vida mudaria naquele dia. Só não sabia exatamente como.

Almeida perdeu a paciência. Cássio, o cliente, fazendo joguinhos com ele? Inaceitável. Era o momento de ser firme.

– Cássio, você matou sua mulher?

– Não! Eu gostava dela!

– Você foi encontrado na cena do crime com sangue nas roupas, com a faca usada no crime na mão direita e a língua da vítima na mão esquerda! Como explica isso?

– Não fui eu! Eu não fiz aquilo! Eu não arranquei a língua dela! Eu não sou um monstro!

Um guarda deu uma sonora pancada numa grade, insinuando que a conversa devia ter um tom mais moderado. Cássio e Almeida se entreolharam. O advogado reviu as anotações  e se recordou de algo curioso.

– Cássio, o que vestia antes do ocorrido?

– Não sei bem. Acho que era uma camisa azul, calça jeans e sapatos… sapatos pretos.

– Não esqueceu nada?

– Acho que não. Meias? Meias pretas, talvez…

– Uma cueca?

– Claro que usava cueca! Qual a relevância disso tudo?

– Na cena do crime, você estava com uma cueca vermelha por cima da calça. Por que estava vestido assim?

– Isso… Nem me lembrava mais. Acho que a pressa e a empolgação… Me confundi.

Uma cueca vermelha. por algo tão estranho e banal teria importância no caso? Almeida tinha uma suspeita que, dificilmente, seria levada a sério.

– O que sua mulher disse quando lhe viu em tal cena ridícula?

– Ela? Acho… “Heroi”.

– Heroi? Tem alguma ideia do motivo para lhe chamar assim?

– Eu lá vou saber! Deve ter me achado parecido com um personagem de gibi.

– Gibis. Seu perfil clínico diz que você tem fascínio por super-herois. Explique.

– Eu gosto de gibis. Passei a gostar recentemente. Não sou fanático.

– O que faria se tivesse poderes?

Pausa. Parecia que essa era a pergunta do dia. Almeida sempre quis ser promotor e acabou querendo acusar quem ele sentia que era culpado. Esperava poder fazer o que é certo.

– Eu… Se tivesse poderes…

Cássio tinha os olhos brilhantes, como os de uma criança que viu um heroi voador de capa colorida.

– Se eu tivesse poderes puniria todos os criminosos.

– Punir? Gostaria de ser um justiceiro?

– Pensei nisso durante um dia. Mas eu queria ser heroi.

– Queria? Não quer mais?

– Não é que não queira. Eu não posso mais.

– Não? Por quê?

– Sabe, acredito que os herois nascem herois, mesmo sem saber e sem seus poderes manifestados. Eles precisam passar por um momento chave que ativa sua capacidade plena. É o destino. Nunca teve a sensação de que pode ir além? De que tem uma missão?

Por um segundo, Almeida viu sua vida passando. Lembrou-se de todos os momentos em que viu injustiças e pôde fazer muito pouco, ou nada. Prosseguiu.

– E com vilões é o mesmo?

Cássio fez parecer que hesitaria na resposta mas não o fez.

– Sim. O destino alcança a todos.

Uma epifania surge na mente de Almeida. Teve medo de fazer a próxima pergunta não pôde se abster.

– Quando o destino alcança o heroi – ou vilão – dá para fugir ou é para sempre?

– Não se pode fugir do destino. Ninguém pode. Nem eu… nem você.

As peças se conectavam num tabuleiro doentio. Em poucos lances, terminaria o jogo.

– Cássio, você acredita em alter-ego? Alguém pode ser duas pessoas diferentes?

– Sim, acredito.

O medo de Almeida tornou-se temor, ódio e vontade. Parecia finalmente ter chegado a um veredito.

– Qual foi a última coisa que sua mulher te disse?

Cássio sentiu que não poderia fugir da resposta mas talvez ela fosse uma libertação.

– Depois que falei que sentia mudança chegando, ela debochou dizendo: “… mude a cueca que está por cima de sua calça, Supercara”.

Almeida não queria ouvir mas incontáveis palavras abalavam seu juízo: heroi, vilão, destino, chave, alter-ego, deboche, morte, silêncio…

Alguns anos se passaram desde que Almeida conheceu Cássio. Foi um encontro tenso. Ele nunca se esqueceu daquele dia: o dia que mudou sua vida e o fez acreditar que herois e vilões sempre existiram; mas não eram aquelas figuras estereotipadas com uniformes coloridos. Desde então acreditou em destino e que não se pode fugir dele.

Já não defende mais clientes, apenas a si mesmo. Ganhou uma alcunha peculiar: Doutor Vingador, por ter assassinado seu cliente conhecido como o Monstro da Rua Nove. Durante o julgamento, Almeida declarou-se culpado, sem jamais revelar o motivo do crime, que continua um mistério. Ainda hoje é lembrado por alguns como heroi. Agora passa os dias contemplando uma frase entalhada na parede de sua cela.

“Seria o destino a mais segura das prisões?”

*****

*Veja outros Joes e Sues trabalhando neste projeto:

Beholder não Tem Bunda! (Jacker):
Brainstorm (Allana Dilene): Grilhões (12/jun)
Dois Contos (Elisa Gen):
Dois Contos (Dan Ramos): In vitro (30/jun)
Juca’s Blog (Juca 999): Advogado do Diabo (28/jun)
O Feudo (Mário Jagunço):
Rascunhos de uma Mente (Ítalo Anjos): Prisão Perpétua (16/jul)
Roleplayer (Marlon Armageddon):
RPG do Mestre (Erick Patrick): Morrendo pela boca (13/jun) e Lá no fundo (27/jun)
Taverna do Goblin (Goblin):

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Sobre Jaime Rangel

Jaime "JJ" Rangel é um cara de Duque de Caxias (RJ), franco, tranquilo e desmemoriado. Gosta de levar inquietação às mentes alheias (antes através do Juca's Blog e Roleplayer). Prefere 10 inimigos sinceros a 1 amigo indeciso. Cuidado ao perguntar algo, ele responderá a verdade. E a verdade é sempre mais divertida (pra ele).
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2 respostas para Liga Narrativa (Jun – Masmorras, Calabouços e Prisões): Advogado do Diabo

  1. Pingback: In vitro « Dois Contos

  2. italocurvelo disse:

    Eu me surpreendi bastante com o texto. O anterior tinha um clima bem leve, puxado para o humor, enquanto esse tem um ar bem mais trágico.

    Curti bastante a frase do final: “Seria o destino a mais segura das prisões?”

    PS: Foi mal a demora para ler o texto.

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